114 Minha Filha Carina Rodrigues Dan Rar «SECURE — 2025»

Se este texto for um dia encontrado dentro de um ficheiro chamado “114 Minha Filha Carina Rodrigues Dan.rar” — descompactem-no com cuidado. Dentro, há mais do que palavras. Há o barulho do mar na Costa da Caparica, o cheiro a pão quente, uma fotografia desbotada de um homem e uma menina de mãos dadas, e o número 114 escrito em guardanapo de papel, dentro de uma gaveta chamada saudade.

E eu procuro. Em cada dia 11 de abril (11/4), acendo uma vela e recordo o cheiro a alfazema do seu casaco, o jeito como o senhor assobiava “Grândola, Vila Morena” enquanto fazia o café, a forma como segurava a minha mão nas travessias perigosas. O senhor foi, para mim, mais do que um pai. Foi o arquivo onde guardei todas as minhas memórias seguras.

Com todo o amor que um número pode carregar, 114 Minha Filha Carina Rodrigues Dan rar

Carina Rodrigues

Lisboa, 17 de abril de 2026

E cresci. E o senhor envelheceu. E agora, quando o visito aos domingos, encontro-o a ouvir fado antigo e a resolver palavras cruzadas. Às vezes, sem querer, o lápis escorrega e o senhor escreve “Carina” nos espaços vazios. Pergunto-lhe o que é aquilo, e o senhor respira fundo, tira os óculos, e diz: “É o 114, minha filha. O espaço que faltava.”

(Para Dan, sempre.)

Hoje, eu sou mãe. A minha filha mais nova fez três anos e, ao soprar as velas, pedi um desejo silencioso: que ela nunca precise esperar 114 dias sem ouvir a minha voz, como eu esperei pelos seus telefonemas quando o senhor trabalhou no estrangeiro. Lembro-me de contar cada dia num caderno xadrez. No dia 114, o senhor apareceu na estação de comboios com um casaco demasiado grande e um sorriso cansado. Apertei-o com tanta força que o senhor riu e disse: “Carina, não me quebre as costelas, menina. Ainda tenho de viver muito para a ver crescer.”